domingo, 8 de fevereiro de 2009

França - os problemas socioeconómicos e políticos nas vésperas da Revolução




No século XVIII, eram camponeses 90% dos 25 milhões de habitantes da França, camponeses livres, pois a servidão só vigorava em regiões muito restritas. A propriedade da terra encontrava-se fortemente concentrada nas mãos da pequena minoria do clero e da nobreza, cabendo aos 22 ou 23 milhões de camponeses apenas 35% das terras. Era miserável a situação desta enorme massa de camponeses, agravada ainda pelo aumento da população que marcou o século XVIII francês e pela subida do custo de vida que então se verificou (62% entre 1726-1741 e 1785-1789) e que provocou uma baixa de 25% no poder de compra das classes populares, em cujo orçamento de despesas o pão representava em média 50%, chegando a atingir 88% em 1789. Sobre as massas populares recaía todo o peso da sobrevivência do Ancien Régime, que se lhes tornava o dia-a-dia mais odioso.
A nobreza, por sua vez, perante a crise que afectou a agricultura francesa durante toda a década de 70 do século XVIII e perante a subida do custo de vida, aumentou as suas exigências face aos camponeses, muitos dos quais, arruinados e miseráveis, abandonaram os campos, constituindo grandes grupos de vagabundos, que tantas vezes se revoltaram, incendiando e saqueando os castelos senhoriais e executando mesmo, em alguns casos, os senhores dos respectivos domínios.
Verificava-se, por outro lado, que, nas vésperas da Revolução de 1789, a burguesia dominava a finança, o comércio e a indústria, fornecendo ao Estado os quadros administrativos e os recursos financeiros de que este carecia. (...) O comércio tinha-se entretanto desenvolvido (...). A indústria francesa adquiria também um certo relevo. (...) A exigência de novos processos técnicos não deixava de se fazer sentir (...). Contudo, o sistema das corporações medievais mantinha-se de pé, com as suas tradições conservadoras e técnicas rotineiras. (...)
Enquanto a nobreza feudal invocava os seus direitos históricos para reclamar, perante o absolutismo monárquico, maior dose de poder e de liberdade, a fim de aumentar e consolidar os seus privilégios feudais, a burguesia culta (...), inspirada na filosofia de John Locke, invocava a razão e o direito natural para reclamar a abolição dos privilégios e a igualdade de direito.


NUNES, Avelãs, Os Sistemas Económicos, Coimbra, Univ. de Coimbra, 1975, pp. 106-12

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